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“Que Horas Ela Volta?” | Crítica e Reflexão

27 09

2015

Que Horas Ela Volta MIXSEA

Título original: Que horas ela volta?

Coprodução: Globo Filmes, Gullane, África Filmes

Ano de produção: 2015

Duração: 1h 51min

Direção: Anna Muylaert

Nacionalidade: Brasil

Gênero: Drama

Nota: nota 5 MIXSEA

 

A aposta brasileira para disputar, em 2016, uma das cinco vagas na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar é o longa “Que Horas Ela Volta?” da diretora Anna Muylaert.

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O filme apresenta com maestria as diferentes classes sociais e ilustra a relação tradicional patrão-empregado. Regina Casé interpreta brilhantemente Val: uma empregada doméstica que trabalha e mora na casa de Bárbara (Karine Teles) e José Carlos (Lourenço Mutarelli), os patrões de classe média-alta.

Os patrões dizem que Val é “praticamente da família”: as refeições, por exemplo, são separadas; Val jamais senta à mesa com os patrões, apesar de montá-la e retirá-la; A empregada mora num quartinho dos fundos; Val nunca pôs os pés na piscina da casa. Ainda assim, afirmam que ela é “praticamente da família”.

A “casa grande” dos patrões é fria. A impessoalidade já é simbolizada pelo corredor que leva aos quartos: escuro, meio remoto e com portas predominantemente fechadas que não têm comunicação entre si. Em determinada cena, há um silêncio quase absoluto enquanto todos à mesa no jantar usam seus smartphones. Val exerce um papel mais verdadeiro de mãe aos filhos dos patrões do que (já me permito chamá-la apenas de) a biológica, tanto que o filme recebeu o nome “The Second Mother” fora do Brasil. Fabinho, o filho adolescente, vai frequentemente ao quarto de Val desabafar e receber um afeto genuíno. A “senzala” é, literalmente e simbolicamente, quente.

A diretora do filme tem o cunho social presente na maioria de suas obras. Nesta, o destaque à dialética patrão-empregado é fabulosa e, com ressalvas, atual. Regina Casé interpreta Val de forma brilhante. Trabalha com naturalidade e utiliza expressões típicas que trazem humor e ironia à trama.

A história adquire um novo rumo com a chegada de Jéssica (interpretada por Camila Márdila), filha que Val não via há 10 anos, morava no nordeste e veio a São Paulo prestar vestibular para ingressar na concorrida Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Se vê, portanto, um país ligeiramente mudado, em que pobre viaja de avião e consegue, mesmo que com inúmeras dificuldades, sonhar alto. Jéssica é questionadora, crítica, estrategista, subversiva, tem o “nariz empinado” e não aceita a relação a que a mãe é submetida. É incrível como é fácil se criar certa antipatia por ela durante boa parte da trama. Jéssica já meio que se convida a ficar no quarto de hóspedes, ao invés de dividir com a mãe o quartinho dos fundos – e José Carlos, o patrão, aceita, o que deixa Barbara, a patroa, possessa. Meio abusada, em certo momento, Jéssica faz a patroa da mãe preparar uma bebida pra ela. A filha da empregada dispensa, inclusive, o “Dona” ao chamar a patroa. Inversão dos papéis?

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Há vários símbolos no filme. No aniversário de Barbara, por exemplo, Val a presenteia com um jogo de xícaras e uma garrafa de café. A patroa finge que gosta, mas acaba fazendo pouco caso ao dizer algo do tipo “guarda lá que usamos em uma ocasião especial”. Val dispõe as xícaras na bandeja como ilustram os rótulos sociais: tudo separado – uma branca, uma branca, uma branca, uma preta… (Possível alusão à realidade que, no final, “o preto” não se encaixa no que é “de branco”?) No aniversário da patroa rica só se vê branco –xícaras e convidados. No evento, Val tenta usar as xícaras (não eram pra se usar “em uma ocasião especial?), no entanto, a patroa a repreende. Além disso, na casa são servidos dois sorvetes: o importado que “é do Fabinho” (filho dos patrões) e o outro qualquer que é do resto (inclui Val e Jéssica). Talvez exista aí mais uma alegoria de vários lares brasileiros.

Camila Márdila interpreta brilhantemente a adolescente que não entende o porquê não poder se sentar com os patrões. Sempre que ela tenta quebrar alguma convenção social se tem a impressão de que ela é “pra frente” demais, ou intrometida demais. Sim, um tapa na cara da classe média, pois, quando o espectador percebe, cria antipatia pela filha da empregada por, basicamente, negar o discurso dominante da elite. Afinal, segundo Michel Foucault, “ao afirmar a relação entre poder e saber, Foucault cria uma definição nova que garante que o poder do discurso pode funcionar negativamente, distorcendo a verdade e garantindo a dominação do poder opressor.”

Nota-se a proximidade de Fabinho com Val (e seu acolhimento materno) e de Jessica com o patrão (e sua cultura “erudita”, apesar das segundas intenções dele). Diante das estripulias da filha com os patrões, Val diz a ela que “quando eles oferecem alguma coisa é só por educação, porque eles têm certeza que vamos dizer não”. Ouvir isso dói, porque sabemos que é a realidade. Já sobre educação? Questionável.

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Jéssica não entende como a mãe nunca tenha entrado naquela piscina, sendo repreendida antes de pensar em entrar na água. O filho da patroa começa a brincar com Jéssica e a joga na piscina enquanto ela fingia (e apenas fingia) não querer, o que enfurece Bárbara e faz Val procurar uma casa para ela e a filha morarem. A negociação do aluguel dá errado e as duas têm que voltar à casa dos patrões. José Carlos, num surto de loucura (apesar de ter dado indícios de atração pela adolescente), pede Jessica em casamento. Parece brincadeira, mas o pedido é sério (disfarçado de brincadeira), ele termina constrangido e desconversa a proposta.

Val e Jessica discutem e a filha afirma não suportar ver a mãe ser tratada como alguém de “segunda classe”. Percebe-se aqui a subversão da filha diante da relação social em questão. Barbara diz ter visto um rato na piscina, manda desfazer a piscina e diz a Val para deixar Jéssica da porta da cozinha pra lá. Seria Jéssica, a adolescente pobre, o rato? Este é o lugar do pobre para a elite: pra lá da porta da cozinha?

Jéssica resolve ir embora da casa, faz a prova do vestibular e vai muito bem. Passa para a segunda fase do exame, ao contrário de Fabinho que não tem o mesmo sucesso. A pobre passou, o rico não. Barbara parabeniza Val pela filha com um tom de inveja na voz. Fabinho aceita os carinho de Val e nega os da outra mãe, que é, na prática, apenas biológica. Péssimo dia pra família tradicional branca de classe média-alta brasileira, não?

No entanto, me incomodou um pouco o fato de Jéssica ser excessivamente folgada às vezes e, embora isso seja provavelmente proposital, o relacionamento de José Carlos com a família é quase inexistente, apesar de todos viverem com o dinheiro da herança do pai dele.

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Mais ao final do longa, talvez o momento de epifania da trama, Val entra na piscina, simbolizando o pobre que não se cala. Ela termina aprendendo com a filha, pedindo demissão e se livrando da condição inferiorizada pregada pelo discurso dominante. Arruma uma casa para ela, a filha e o neto que tinha ficado no nordeste e Jéssica escondia da mãe. Val traz o jogo de xícaras que tinha dado à patroa e o distribui novamente na bandeja. Agora a metáfora não segrega mais. É preto no branco e branco no preto. Tudo misturado, sem distinção. Como a própria Val disse, igual à filha.

“Que Horas Ela Volta?” promove reflexão em quem lhe assiste sobre a realidade em que vivemos. Demonstra que pobre não deve estar abaixo do rico. Que a empregada (e seus eufemismos, como “ajudante”) também não estão. Que pobre não nasceu pra ser pisado. Enfim, demonstra que pobre não serve apenas pra ficar pra lá da porta da cozinha!

6 Comentários

  • Antonio Claudio - 05/10/2015 as 1:21 pm

    Que crítica maravilhosa, e honesta, parabéns

  • Vinicius Tinguan - 11/10/2015 as 12:19 am

    Excelente crítica, parabéns!
    Abordou todos os pontos que reparei no filme e me fez refletir um pouco mais sobre todos esses padrões sociais bizarros que acontecem com patrões e empregados nos lares.

  • Beatriz - 13/10/2015 as 2:02 am

    Não, Jéssica não é folgada. Val trabalha em tempo integral, vive na casa dos patrões, na verdade ali é sua casa. Pense assim.

  • Fábio Matos - 01/11/2015 as 3:20 am

    Parabéns pelo texto. Só penso que valeria um alerta para spoilers, pois você trata de praticamente todo o enredo.

    Também gostei bastante do filme.

    Abraços.

  • Otavio Arantes - 04/01/2016 as 5:17 pm

    Se fosse por mim, tinha ganhado o Oscar tranquilamente!

  • Gisele - 31/01/2016 as 10:04 pm

    Parabéns pelo texto. Só acho que a Jéssica era meio “folgada” por que adolescente é meio sem noção mesmo, independente de classe social. Eles ainda estão elaborando os códigos de comportamento dos adultos. Mas por que ela era a filha da empregada, ela foi repreendida. O amigo de Fabinho era muito mais folgado, mal educado até, e a Val levava na brincadeira. Outra coisa que reparei nas xícaras misturadas da cena final. Quando elas estão realmente tomando o café, as xícaras e os pires estão combinando: branco no branco e preto no preto, talvez simbolizando que as coisas no Brasil podem ter mudado um pouco, mas o país continua igual.

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