Os indicados e os ganhadores do Oscar 2016

01 03

2016

Aconteceu neste último domingo, dia 28 de fevereiro de 2016, a 88ª edição do Oscar, em que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas revela os ganhadores dos prêmios por categorias. O principal prêmio foi dado a “Spotlight – Segredos Revelados”, mas foi “Mad Max – Estrada da Fúria” que ganhou o maior número de estatuetas, no total 6.

Confira a lista de indicados por categoria, e seus respectivos ganhadores:

Melhor Filme

  • Mad Max – Estrada da Fúria
  • O Regresso 
  • O Quarto de Jack
  • Vencedor: Spotlight – Segredos Revelados 
  • A Grande Aposta
  • Ponte dos Espiões
  • Brooklyn
  • Perdido em Marte

The Oscars animated GIF

Melhor Ator

Melhor Atriz

  • Cate Blanchett – Carol
  • Vencedor: Brie Larson – O Quarto de Jack
  • Saoirse Ronan – Brooklyn
  • Charlotte Rampling – 45 Anos
  • Jennifer Lawrence – Joy – O Nome do Sucesso

The Oscars win laughing oscars room

Melhor Diretor

The Oscars oscars 2016

Melhor Canção Original

The Oscars oscars 2016 cant breathe i actually cant breathe right now

Melhor Trilha Sonora

The Oscars oscars 2016 ennio morricone

Melhor Longa Estrangeiro

  • Theeb – Jordânia
  • A Guerra – Dinamarca
  • Cinco Graças – França
  • Vencedor: Filho de Saul – Hungria
  • O Abraço da Serpente – Colômbia

Melhor Curta-Metragem

  • Ave Maria
  • Day One
  • Everything Will Be Okay (Alles Wird Gut)
  • Shok
  • Vencedor: Stutterer

Melhor Documentário em Longa-Metragem

Melhor Documentário em Curta-Metragem

  • Body Team 12
  • Chau, Beyond the Lines
  • Claude Lanzmann – Spectres of the Shoah
  • Vencedor: A Girl in the River: The Price of Forgiveness
  • Last Day of Freedom

Melhor Ator Coadjuvante

  • Christian Bale – A Grande Aposta
  • Tom Hardy – O Regresso
  • Mark Ruffalo – Spotlight – Segredos Revelados
  • Vencedor: Mark Rylance – Ponte dos Espiões
  • Sylvester Stallone – Creed – Nascido para Lutar

Melhor Animação

  • Anomalisa
  • Vencedor: Divertida Mente
  • Shaun, o Carneiro
  • O Menino e o Mundo
  • As Memórias de Marnie

Melhor Curta em Animação

  • Vencedor: A História de Um Urso
  • Prologue
  • Os Heróis de Sanjay
  • We Can’t Live Without Cosmos
  • World of Tomorrow

Melhores Efeitos Visuais

Melhor Mixagem de Som

Melhor Edição de Som

Melhor Edição

Melhor Fotografia

Melhor Maquiagem e Cabelo

  • O Ancião que Saiu Pela Janela e Desapareceu
  • Vencedor: Mad Max – Estrada da Fúria
  • O Regresso 

Melhor Design de Produção

mad max mad max fury road fury road

Melhor Figurino

  • O Regresso 
  • Carol
  • Cinderela
  • A Garota Dinamarquesa
  • Vencedor: Mad Max – Estrada da Fúria

Melhor Atriz Coadjuvante

  • Jennifer Jason Leigh – Os 8 Odiados
  • Rooney Mara – Carol
  • Rachel McAdams – Spotlight – Segredos Revelados
  • Vencedor: Alicia Vikander – A Garota Dinamarquesa
  • Kate Winslet – Steve Jobs

The Oscars win oscars alicia vikander oscars 2016

Melhor Roteiro Adaptado

  • Vencedor: Charles Randolph, Adam McKay – A Grande Aposta
  • Nick Hornby – Brooklyn
  • Phyllis Nagy – Carol
  • Drew Goddard – Perdido em Marte
  • Emma Donoghue – O Quarto de Jack

Melhor Roteiro Original

  • Matt Charman – Ponte dos Espiões
  • Alex Garland – Ex-Machina
  • Peter Docter, Meg LeFauve, Josh Cooley – Divertida Mente
  • Vencedor: Josh Singer, Tom McCarthy – Spotlight – Segredos Revelados
  • Jonathan Herman, Andrea Berloff – Straigh Outta Compton

O Regresso tem cenas simples com muito sentimento e é maravilhoso| Crítica

19 02

2016

Indicado ao Oscar em 12 categorias, O Regresso (direção de Alejandro Iñárritu) supera expectativas, transmite sentimentos em cenas simples e foge da leitura feita pela história do “homem branco bom” contra os “índios maus”.

 

Título: O Regresso (The Revenant)

Direção e Roteiro: Alejandro González Iñárritu

Ano: 2016

Duração: 2 horas e 36 minutos

Nacionalidade: EUA

Gênero: Faroeste, aventura

Nota: nota 5 MIXSEA

 

 

 

 

O filme datado em 1822 tem como protagonista Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), cuja jornada rumo ao oeste não poderia ter sido mais árdua. Atacado por um urso e seriamente machucado, sendo deixado para trás por sua “equipe” de caça com ninguém menos que John Fitzgerald (Tom Hardy), que lhe rouba, quase literalmente, tudo o que lhe restava em vida. Glass sobrevive – não vive, sobrevive – em meio às imensas adversidade na busca de um propósito: vingança.

Imagem de river, snow, and blood

O enredo interessante e cativante da história não é, no entanto, o único motivo pelo qual a obra de Iñárritu é implausível. O aspecto visual do filme é fantástico, com uma fotografia incrível  e, pode se dizer, bela e métodos de filmagem, somados às interpretações (grande parte por DiCaprio), impecáveis na hora de transmitir o sentimento e a realidade da cena.  Como os closes no rosto de DiCaprio ou o ângulo da câmera de baixo para cima, de modo a mostrar a insignificância humana em meio a grandiosidade da natureza. Além disso, a trilha sonora acompanha e marca muito bem cada momento sem deixar a desejar.

À parte das questões técnicas, o filme faz uma reeleitura dos acontecimentos da conquista do oeste do século XIX. Somos acostumados a ver nos filmes, especialmente estadounidenses, inimigos ou antagonistas russos, chineses, terroristas, ou seja, o outro lado, normalmente negativo, dos Estados Unidos. Em O Regresso isso não acontece (não é tão incisivo). Na história dos Estados Unidos, a conquista para o oeste foi marcada por derramamento de sangue indígena. No entanto, sob a máscara do destino manifesto, de que os moradores brancos das 13 colônias eram destinados a libertar e civilizar o oeste, milhões de índios morreram e  várias culturas foram destruídas.

Imagem de leonardo dicaprio, movie, and the revenant

O Regresso

No filme, a equipe de Glass foi atacada, logo nas cenas iniciais, por uma tribo de índios (Arikaras) o que daria a entender que, mais uma vez, eles seriam os vilões da história. No entanto, com o desenvolvimento do longa, percebe-se uma complexidade maior do que isso, especialmente conforme o passado de Glass começa a ser revelado. Há dois momentos que demonstram o que está sendo escrito aqui. O primeiro é quando um índio (cuja tribo não me recordo) tem um diálogo com Glass e relata o seu ponto de vista da marcha para o oeste. O segundo é a cena final do filme (deixo a vocês descobrirem o porquê dessa). (Até o motivo pelo qual os Arikaras atacam os “homens brancos” é mais honroso do que o do Destino Manifesto).

Cabe a Fitzgerald, portanto, assumir o posto de vilão de O Regresso. No personagem (em em Glass, em partes, também), toda a ganância, crueldade e sujeira humana é materializada. E são essas características especificamente humanas o mais relatado. Em 2 horas e 36 minutos vê-se sangue, violência, frio, solidão, desespero e renascimento. Vê-se até que ponto o homem é capaz de sobreviver em busca de vingança e até que ponto o homem é covarde o bastante para não ajudar o próximo. Vê-se até que ponto o homem chega por causa de dinheiro e conforto e até que ponto ele age para proteger quem ama.

O Regresso é, em suma, uma obra prima, marcada pela volta à selvageria humana. Com cenas de “revirar o estômago”, atuações memoráveis, uma direção impecável e uma produção mais impecável ainda não espanta as 12 indicações ao Oscar 2016. Muito pelo contrário, chama-as para si.

Imagem de the revenant

Obs.: Vale a pena conferir algumas entrevistas dos envolvidos no filme antes de vê-lo. Isso garante maior veracidade ao que está sendo exposto na tela do cinema, deixando a experiência do espectador mais intensa (vai por mim). Para isso clique aqui, aqui ou procure no famigerado google.

Kramer vs Kramer – Um drama para assistir | Crítica

16 02

2016

Há menos de duas semanas da tão esperada premiação do Oscar, lembramos de um dos dramas mais emocionante e premiado da história da Academia, Kramer versus Kramer (1979), é protagonizado por Dustin Hoffman e coadjuvado por Meryl Streep.

 

Título: Kramer versus Kramer

Direção e Roteiro: Robert Benton

Ano: 1979

Duração: 1hora e 45 minutos

Nacionalidade: EUA

Gênero: Drama

Nota: nota 5 MIXSEA

O filme conta a história de uma família em crise matrimonial, Ted e Joanna são um casal que vivem em desacordo sobre as prioridades do marido com a família, o trabalho está sempre em primeiro lugar, Joanna saturada pela situação abandona o lar, deixando Billy, o filho do casal por conta de Ted. O Pai então ausente passa a ter obrigações domésticas e paternas à conciliar com o trabalho e que após algum tempo conseguem se ajustar. No entanto, Joanna volta e quer ficar com o filho, a recusa de Ted em ceder a guarda acaba por uma disputa judicial de custódia do filho no tribunal.

Kramer versus Kramer foi um grande vencedor de cinco estatuetas do Oscar de 1980; melhor filme, melhor diretor, melhor ator (Dustin Hoffman), melhor atriz coadjuvante (Meryl Streep) e melhor roteiro adaptado.

Atualmente o filme se encontra disponível para região do Brasil no serviço de streaming Netflix, é uma ótima dica para quem está cansado das mesmas indicações que o aplicativo insiste em destacar, mas aviso, prepare o lenço de papel porque a emoção tomará conta.

Lista completa dos indicados ao Oscar 2016

18 01

2016

Como esperado, “Mad Max: Estrada da Fúria” e “Perdido em Marte” lideram a quantidade de indicações ao maior e mais disputado prêmio cinematográfico do mundo. A Apresentação do prêmio se iniciará com os diretores Guillermo del Toro e Ang Lee, em seguida John Krasinski e a presidente da Academia Cheryl Boone Isaacs darão sequência ao show.

indicados ao Oscar 2016 MIXSEA.COM.BR

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas já revelou os  indicados da edição 2016, confira a lista completa:

FILME
The Big Short
Bridge of Spies
Brooklyn
Mad Max: Fury Road
The Martian
The Revenant
Room
Spotlight

DIREÇÃO
Alejandro González Iñárritu, The Revenant
Tom McCarthy, Spotlight
Adam McKay, The Big Short
George Miller, Mad Max: Fury Road
Ridley Scott, The Martian
Lenny Abramson, Room

ROTEIRO ADAPTADO
The Martian
Brooklyn
The Big Short
Carol
Room

ROTEIRO ORIGINAL
potlight
Bridge of Spies
Inside Out
Ex Machina
Straight Outta Compton

ATOR
Bryan Cranston, Trumbo
Leonardo DiCaprio, The Revenant
Michael Fassbender, Steve Jobs
Eddie Redmayne, The Danish Girl
Matt Damon, The Martian

ATRIZ
Cate Blanchett, Carol
Brie Larson, Room
Jennifer Lawrence, Joy
Charlotte Rampling, 45 Years
Saoirse Ronan, Brooklyn

ATOR COADJUVANTE
Christian Bale, The Big Short
Tom Hardy, The Revenant
Mark Ruffalo, Spotlight
Mark Rylance, The Bridge of Spies
Sylvester Stallone, Creed

ATRIZ COADJUVANTE
Jennifer Jason Leigh, The Hateful Eight
Rooney Mara, Carol
Rachel McAdams, Spotlight
Alicia Vikander. The Danish Girl
Kate Winslet, Steve Jobs

EFEITOS VISUAIS
Ex Machina
Mad Max: Fury Road
The Martian
The Revenant
Star Wars: The Force Awakens

EDIÇÃO
The Big Short
Mad Max
The revenant
Spotlight
Star Wars

DOCUMENTÁRIO (LONGA METRAGEM)
Amy
Cartel Land
The Look of Silence
What Happened, Miss Simone?
Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom

FIGURINO
Sandy Powell, Carol
Sandy Powell, Cinderella
Paco Delgado, The Danish Girl
Jenny Beavan, Mad Max: Fury Road
The Revenant

MAQUIAGEM
Mad Max: Fury Road
The Revenant
The 100-Year-Old Man Who Climbed out the Window and Disappeared

DESIGN DE PRODUÇÃO
“Bridge of Spies”
“The Danish Girl”
“Mad Max: Fury Road”
“The Martian”
“The Revenant”

ANIMAÇÃO (LONGA METRAGEM)
Anomalisa
Boy and the World
Inside Out
Shawn the Sheep Movie
When Marley Was There

ANIMAÇÃO (CURTA METRAGEM)
Bear Story
Prologue
Sanjay’s Super Team
We Can’t Live Without Cosmos
World of Tomorrow Tomorrow

CINEMATOGRAFIA
Carol
The Hateful Eight
Mad Max: Fury Road
The Revenant
Sicario

EDIÇÃO DE SOM
Mad Max: Fury Road
The Martian
The Revenant
Sicario
Star Wars: The Force Awakens

MIXAGEM DE SOM
“Bridge of Spies”
“Mad Max: Fury Road”
“The Martian”
“The Revenant”
“Star Wars: The Force Awakens”

TRILHA SONORA
Bridge of Spies
Carol
The Hateful Eight
Sicario
Star Wars

CANÇÃO ORIGINAL
“Earned It” from “Fifty Shades of Grey”
“Manta Ray” from “Racing Extinction”
“Simple Song #3” from “Youth”
“Til It Happens To You” from “The Hunting Ground”
“Writing’s On The Wall” from “Spectre”

obs: A academia não indicou nenhum ator ou atriz negro nesta edição, já sendo o segunda ano seguido

 O Oscar 2016 acontece em 28 de fevereiro

“Que Horas Ela Volta?” | Crítica e Reflexão

27 09

2015

Que Horas Ela Volta MIXSEA

Título original: Que horas ela volta?

Coprodução: Globo Filmes, Gullane, África Filmes

Ano de produção: 2015

Duração: 1h 51min

Direção: Anna Muylaert

Nacionalidade: Brasil

Gênero: Drama

Nota: nota 5 MIXSEA

 

A aposta brasileira para disputar, em 2016, uma das cinco vagas na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar é o longa “Que Horas Ela Volta?” da diretora Anna Muylaert.

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O filme apresenta com maestria as diferentes classes sociais e ilustra a relação tradicional patrão-empregado. Regina Casé interpreta brilhantemente Val: uma empregada doméstica que trabalha e mora na casa de Bárbara (Karine Teles) e José Carlos (Lourenço Mutarelli), os patrões de classe média-alta.

Os patrões dizem que Val é “praticamente da família”: as refeições, por exemplo, são separadas; Val jamais senta à mesa com os patrões, apesar de montá-la e retirá-la; A empregada mora num quartinho dos fundos; Val nunca pôs os pés na piscina da casa. Ainda assim, afirmam que ela é “praticamente da família”.

A “casa grande” dos patrões é fria. A impessoalidade já é simbolizada pelo corredor que leva aos quartos: escuro, meio remoto e com portas predominantemente fechadas que não têm comunicação entre si. Em determinada cena, há um silêncio quase absoluto enquanto todos à mesa no jantar usam seus smartphones. Val exerce um papel mais verdadeiro de mãe aos filhos dos patrões do que (já me permito chamá-la apenas de) a biológica, tanto que o filme recebeu o nome “The Second Mother” fora do Brasil. Fabinho, o filho adolescente, vai frequentemente ao quarto de Val desabafar e receber um afeto genuíno. A “senzala” é, literalmente e simbolicamente, quente.

A diretora do filme tem o cunho social presente na maioria de suas obras. Nesta, o destaque à dialética patrão-empregado é fabulosa e, com ressalvas, atual. Regina Casé interpreta Val de forma brilhante. Trabalha com naturalidade e utiliza expressões típicas que trazem humor e ironia à trama.

A história adquire um novo rumo com a chegada de Jéssica (interpretada por Camila Márdila), filha que Val não via há 10 anos, morava no nordeste e veio a São Paulo prestar vestibular para ingressar na concorrida Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Se vê, portanto, um país ligeiramente mudado, em que pobre viaja de avião e consegue, mesmo que com inúmeras dificuldades, sonhar alto. Jéssica é questionadora, crítica, estrategista, subversiva, tem o “nariz empinado” e não aceita a relação a que a mãe é submetida. É incrível como é fácil se criar certa antipatia por ela durante boa parte da trama. Jéssica já meio que se convida a ficar no quarto de hóspedes, ao invés de dividir com a mãe o quartinho dos fundos – e José Carlos, o patrão, aceita, o que deixa Barbara, a patroa, possessa. Meio abusada, em certo momento, Jéssica faz a patroa da mãe preparar uma bebida pra ela. A filha da empregada dispensa, inclusive, o “Dona” ao chamar a patroa. Inversão dos papéis?

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Há vários símbolos no filme. No aniversário de Barbara, por exemplo, Val a presenteia com um jogo de xícaras e uma garrafa de café. A patroa finge que gosta, mas acaba fazendo pouco caso ao dizer algo do tipo “guarda lá que usamos em uma ocasião especial”. Val dispõe as xícaras na bandeja como ilustram os rótulos sociais: tudo separado – uma branca, uma branca, uma branca, uma preta… (Possível alusão à realidade que, no final, “o preto” não se encaixa no que é “de branco”?) No aniversário da patroa rica só se vê branco –xícaras e convidados. No evento, Val tenta usar as xícaras (não eram pra se usar “em uma ocasião especial?), no entanto, a patroa a repreende. Além disso, na casa são servidos dois sorvetes: o importado que “é do Fabinho” (filho dos patrões) e o outro qualquer que é do resto (inclui Val e Jéssica). Talvez exista aí mais uma alegoria de vários lares brasileiros.

Camila Márdila interpreta brilhantemente a adolescente que não entende o porquê não poder se sentar com os patrões. Sempre que ela tenta quebrar alguma convenção social se tem a impressão de que ela é “pra frente” demais, ou intrometida demais. Sim, um tapa na cara da classe média, pois, quando o espectador percebe, cria antipatia pela filha da empregada por, basicamente, negar o discurso dominante da elite. Afinal, segundo Michel Foucault, “ao afirmar a relação entre poder e saber, Foucault cria uma definição nova que garante que o poder do discurso pode funcionar negativamente, distorcendo a verdade e garantindo a dominação do poder opressor.”

Nota-se a proximidade de Fabinho com Val (e seu acolhimento materno) e de Jessica com o patrão (e sua cultura “erudita”, apesar das segundas intenções dele). Diante das estripulias da filha com os patrões, Val diz a ela que “quando eles oferecem alguma coisa é só por educação, porque eles têm certeza que vamos dizer não”. Ouvir isso dói, porque sabemos que é a realidade. Já sobre educação? Questionável.

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Jéssica não entende como a mãe nunca tenha entrado naquela piscina, sendo repreendida antes de pensar em entrar na água. O filho da patroa começa a brincar com Jéssica e a joga na piscina enquanto ela fingia (e apenas fingia) não querer, o que enfurece Bárbara e faz Val procurar uma casa para ela e a filha morarem. A negociação do aluguel dá errado e as duas têm que voltar à casa dos patrões. José Carlos, num surto de loucura (apesar de ter dado indícios de atração pela adolescente), pede Jessica em casamento. Parece brincadeira, mas o pedido é sério (disfarçado de brincadeira), ele termina constrangido e desconversa a proposta.

Val e Jessica discutem e a filha afirma não suportar ver a mãe ser tratada como alguém de “segunda classe”. Percebe-se aqui a subversão da filha diante da relação social em questão. Barbara diz ter visto um rato na piscina, manda desfazer a piscina e diz a Val para deixar Jéssica da porta da cozinha pra lá. Seria Jéssica, a adolescente pobre, o rato? Este é o lugar do pobre para a elite: pra lá da porta da cozinha?

Jéssica resolve ir embora da casa, faz a prova do vestibular e vai muito bem. Passa para a segunda fase do exame, ao contrário de Fabinho que não tem o mesmo sucesso. A pobre passou, o rico não. Barbara parabeniza Val pela filha com um tom de inveja na voz. Fabinho aceita os carinho de Val e nega os da outra mãe, que é, na prática, apenas biológica. Péssimo dia pra família tradicional branca de classe média-alta brasileira, não?

No entanto, me incomodou um pouco o fato de Jéssica ser excessivamente folgada às vezes e, embora isso seja provavelmente proposital, o relacionamento de José Carlos com a família é quase inexistente, apesar de todos viverem com o dinheiro da herança do pai dele.

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Mais ao final do longa, talvez o momento de epifania da trama, Val entra na piscina, simbolizando o pobre que não se cala. Ela termina aprendendo com a filha, pedindo demissão e se livrando da condição inferiorizada pregada pelo discurso dominante. Arruma uma casa para ela, a filha e o neto que tinha ficado no nordeste e Jéssica escondia da mãe. Val traz o jogo de xícaras que tinha dado à patroa e o distribui novamente na bandeja. Agora a metáfora não segrega mais. É preto no branco e branco no preto. Tudo misturado, sem distinção. Como a própria Val disse, igual à filha.

“Que Horas Ela Volta?” promove reflexão em quem lhe assiste sobre a realidade em que vivemos. Demonstra que pobre não deve estar abaixo do rico. Que a empregada (e seus eufemismos, como “ajudante”) também não estão. Que pobre não nasceu pra ser pisado. Enfim, demonstra que pobre não serve apenas pra ficar pra lá da porta da cozinha!

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